Há momentos em que o mais difícil não é caminhar, mas descobrir qual caminho nos cabe. Acho que muitas mulheres conhecem bem esse sentimento. Durante muito tempo, eu mesma convivi com um incômodo difícil de nomear: a sensação de estar fazendo, realizando, participando de muitos espaços, mas ainda procurando compreender onde, de fato, eu poderia gerar valor a partir daquilo em que acreditava.
Para as mulheres, essa busca costuma vir acompanhada de outras questões. Afinal, somos, em grande parte, aquelas que administram os cuidados com os filhos, com familiares, com a casa e com tantas demandas que historicamente foram alocadas para nós. Nem sempre por escolha, mas por uma construção cultural que ainda nos coloca em uma posição desigual. Por isso, encontrar nosso lugar profissional também pode significar recuperar uma parte de nós mesmas.
Recentemente, ao assistir ao filme Odisseia no cinema, pensei muito sobre essa busca. Em um dos momentos mais simbólicos da narrativa, o rei Ulisses permanece por anos na ilha da deusa Calipso, depois de perder todos os seus aliados. Ela lhe oferece conforto e até a possibilidade da imortalidade. Ainda assim, ele desejou partir. Ele conhecia os perigos da jornada porque tinha vivido na pele alguns dos maiores desafios imagináveis, mas sabia que seu caminho estava em outro lugar: era preciso voltar a Ítaca, à sua história, àquilo que lhe pertencia e àquilo que ainda precisava realizar.
Essa imagem ficou reverberando em mim por alguns dias porque, guardadas as proporções, há algo profundamente humano nessa escolha quase divina. Existem lugares que podem até parecer seguros, promissores ou confortáveis, mas que não respondem àquilo que sentimos que viemos construir.
A Poliniza Projetos nasceu muito desse incômodo e dessa procura. Antes de ser uma empresa ou uma organização, ela foi uma resposta à necessidade de encontrar um rumo, um posicionamento e uma maneira de transformar em trabalho aquilo que, para mim, fazia sentido. Durante anos, circulando pelo ecossistema de inovação, também me perguntei muitas vezes o que significava, afinal, inovar. Onde a inovação mora? O que ela muda concretamente para uma cidade? Para um estado? Para uma empresa? Para o nosso país? Para uma startup? Para as pessoas?
Frequentamos eventos, construímos redes, debatemos tendências e imaginamos futuros possíveis e, às vezes, aparentemente impossíveis, mas sempre me incomodou perceber o quanto algumas dessas ideias permaneciam no campo da expectativa e o quanto ainda era necessário fazer para que elas se materializassem.
Foi nesse momento que comecei a entender com mais clareza o nosso lugar. Hoje, quando elaboramos ou fazemos a gestão de projetos públicos e privados, vemos a inovação sair do discurso e ganhar orçamento, equipe, cronograma, tecnologia, prazo, pesquisa, produto, território e impacto. Vemos ideias encontrarem recursos para existir. Vemos pesquisadores, empreendedores, organizações e habitats conseguirem transformar intenção em realização.
E talvez, olhando bem mais para trás, eu consiga conectar pontos da minha própria história que revelam que eu sempre estive atuando nessa missão, mesmo em contextos diferentes. Faz-me feliz ajudar a criar as condições para que um plano ou um sonho, que ainda é possibilidade, consiga acontecer no mundo real. Eu sempre olhei para os empreendedores como sementes. É como se o poder divino da criação encontrasse uma forma de se manifestar também por meio de nós.
Quando encontramos um trabalho que dialoga com aquilo em que acreditamos, outras pessoas também reconhecem essa verdade. Muitas das mulheres que hoje caminham conosco se conectam exatamente com essa vontade de fazer diferença por meio do trabalho, sem separar propósito de execução, mas também sem viver somente por ele. O trabalho é ponte. É meio para nos descobrirmos, para construirmos e para nos realizarmos como gente.
E existe uma metáfora que explica muito bem a própria identidade da Poliniza. A abelha não sai da colmeia pensando: "hoje vou salvar o planeta". Ela busca, quase em silêncio, o néctar porque precisa alimentar a si mesma e gerar valor para sua colmeia. É justamente enquanto cumpre essa necessidade que realiza algo muito maior: transporta o pólen e torna possível a reprodução das plantas, os frutos, as sementes e uma enorme cadeia de vida.
Quem me ajudou a construir essa reflexão foi meu irmão, numa tarde de sábado, quando eu ainda vivia essa agonia da busca, de fazer tanto e, ainda assim, não conseguir encontrar o caminho, o rumo.
Não precisamos nos anular para transformar a realidade.
Antes de querer sustentar os sonhos, os projetos ou as necessidades de todos ao nosso redor, precisamos compreender também aquilo que nos alimenta, o que queremos construir e quais são as nossas próprias necessidades. Descobri que a transformação mais sustentável e também a mais bonita seja aquela em que gerar valor para o outro não exige abandonar a nós mesmas.
Para mim, abrir caminhos como mulher empreendedora tem muito menos a ver com ter todas as respostas e muito mais com continuar caminhando até reconhecer o caminho que faz sentido. A atriz Laura Cardoso, que nos deixou dia desses, disse certa vez: "A gente vai aprimorando. Se você chega ao ponto de dizer 'eu sou', então você morreu. É um processo infinito de aprendizado." Eu amei essa ideia. Ela dialoga profundamente com a inovação e também com os inúmeros erros que cometemos na vida até acertar. Mas quem seríamos sem essa combinação quase poética entre tentativa, erro, descoberta e transformação?
Há períodos em que nos sentimos diante de uma encruzilhada, experimentando direções, revendo escolhas e tentando compreender qual é o nosso lugar. Mas, quando finalmente encontramos uma direção que conversa com quem somos, algo muda: o trabalho deixa de ser uma necessidade a ser cumprida exaustivamente e passa a organizar também um sentido de existência e de contribuição.
Uma das coisas mais bonitas para uma mulher que encontra o seu caminho é perceber que ela raramente caminha sozinha. Quando uma mulher ocupa um lugar que faz sentido para ela, outras mulheres também conseguem enxergar novas possibilidades de caminho. E é assim que seguimos agregando mulheres maravilhosas à nossa colmeia e à nossa vida.
também é polinizar.
